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Prainha e cascatas que deram nome a Três Cachoeiras: os atrativos do Vale do Paraíso

PROJETO DE INCENTIVO AO TURISMO NA REGIÃO TEM AVAL DA PREFEITURA, QUE PROMETE INVESTIMENTOS NO SETOR


TIAGO BOFF



  • A estrada de pedras soltas com barro e cascalho provoca arranhões na lataria, e solavancos no assoalho do veículo. Conforto não se pode dizer que seja o forte das trilhas vicinais do Vale do Paraíso, área serrana do Litoral Norte. Um cumprimento, no entanto, desmancha a cara emburrada até do motorista mais cuidadoso com o patrimônio sobre rodas.

— Uh! — grita um desconhecido com a mão estendida, ao soltar a rédea do carro de boi.

O encanto do interior de Três Cachoeiras não se resume à hospitalidade: lagos de pouca correnteza, rodeados por montes repletos de bananais e quedas d’água que desembocam em piscinas naturais. Pouco conhecida de quem não é nativo, a área de belezas exuberantes fica próximo a balneários badalados como Capão da Canoa e Torres – da cidade mais ao norte do RS são apenas 20 quilômetros pela BR-101.


Essa porção de terra quase intocada pode ser descoberta em passeios de balão, por miradouros, descidas de rapel e em grupo de pedalada. Cascatas são encontradas no topo de pequenas vielas, caminho seguido de trilhas com dificuldade mediana. Um projeto quer levar essas experiências a mais turistas – e GZH visitou quatro locais para descobrir por que a região é chamada de paraíso.

PRAINHA

Não raro se encontram no Morro Azul – distrito do Vale do Paraíso –, vias moldadas por muros de taipa e construções de madeira semelhantes a uma parada de ônibus. Nessa proteção, o excesso da colheita dos bananais é depositado para retirada sem custo por quem cruza o local. Maduro em demasia para o mercado, porém pleno para o consumo, garantem os agricultores. Assim os visitantes não deixam quem visita Três Cachoeiras ir embora sem algum agrado: chimia de banana e rosca de polvilho cozida sobre folhas de bananeira são destaque.

Por trás dos montes que servem de base para essas plantações, descobre-se a Prainha, distante dois quilômetros do centro de Três Cachoeiras. “Desliga o celular e conecta com a natureza”, pede uma das poucas intervenções do homem na praia de água doce da Lagoa Itapeva. Com piso pedregoso e arborização abundante, o refúgio do sol é na sombra das figueiras ou da série de coqueiros.


— Eu mando foto e me respondem que isso não fica em Três Cachoeiras. Convido todo mundo, só exijo que tragam sacola para o lixo, porque ninguém vai deixar nada espalhado — afirma o vendedor autônomo Fábio Bauer, 54 anos.

O comerciante serviu de guia a um grupo. Com espaço de sobra, as cadeiras dos amigos foram distribuídas próximo às pequenas ondas formadas pelo vento. Nascido e criado em Torres, o servidor aposentado Luís Fernando de Carvalho, 58 anos, foi cativado pelo local. E prometeu voltar.

— EU MORO TÃO PERTO E NÃO CONHECIA. VOU COMEÇAR A FREQUENTAR PARA FUGIR DA AGLOMERAÇÃO — VISLUMBRA.

A estrada sinuosa que leva até a Prainha reserva passagem por curtos pontilhões de madeira. A vista do vale encanta: no alto da via, uma casa de madeira em estilo rústico tem sacada voltada às águas e às colinas. A rua que liga a área urbana ao estuário contorna o morro e tem boas condições de tráfego em dias secos – na chuva, há de se ter cuidado, pois o passeio pode terminar em rodas presas no barro. Com bom humor, o atoleiro potencializa a aventura.

Os veículos que chegam à Prainha estacionam em um gramado aberto, a poucos metros do balneário. Alguns automóveis descem até a faixa de pedras – não há regras, o bom senso determina o convívio dos visitantes.

Passageiros de uma caminhonete com barraca de camping na caçamba aproveitaram a natureza para montar a estrutura embaixo de uma das árvores, e passaram a noite no local. Segundo o condutor, a manhã seguinte, um sábado, reservou duas surpresas: garrafas de vidro deixadas no chão por jovens que passaram a noite festejando na orla; e o encontro com voluntários, amigos que querem manter preservada a cidade em que vivem.

— Em parceria, pedimos para a prefeitura a instalação dessas lixeiras no acesso, e fazemos de bicicleta o caminho até aqui para tirar o lixo. É muito lindo, né? — exibia o balneário a professora Suelen Mattos, 36 anos.


Aos finais de semana, os espaços são mais disputados do que nos dias úteis. A reportagem visitou a praia no terceiro sábado de janeiro, e não encontrou excesso de público, com distanciamento garantido aos banhistas. Mesmo com uma faixa de uso com pouco mais de 100 metros, a privacidade pôde ser mantida entre as pessoas.

A área da Prainha é privada e, segundo a prefeitura, o morador cede o local sem qualquer exigência ao município. Neto do proprietário, o engenheiro civil Robson Rodrigues Pereira Conta, 27 anos, explica que o avô comprou a área há mais de 50 anos, e nunca teve intenção de instalar qualquer tipo de portaria.

— Ele sempre deixou de graça, desde que cuidem. E a gente nota que está sendo bem cuidado. Parece que a água tá mais limpa que há alguns anos — avalia.

Não há guarda-vidas, e mesmo com correnteza calma e nível da água baixo, exige atenção.

— Precisa respeito ao local e a tudo que ele oferece — resume Suelen.

Localização: Rua Manoel José Scheffer, sem número. A via pode ser acessada diretamente pela RS-494 (paralela à BR-101), rodovia a duas quadras da Rodoviária de Três Cachoeiras, sentido de quem desloca de Osório a Torres.

Comodidade: estacionamento e acesso gratuitos. Não há horário para entrada ou saída.

TRAPICHE NO LADO OPOSTO DA LAGOA

Dois veículos cobertos pela poeira da Estrada dos Cunhas ocupavam parte da via, quase encostados na cerca. A estrada é o único meio terrestre para chegar ao lado oposto à faixa de balneário da Prainha. De um lado, cavalos, bois e bezerros pastavam nos potreiros. Do outro, o assado preparado pela família Rohr, moradores de Nova Petrópolis que descobriram o ponto por acaso, a caminho da praia de Rondinha.

— AQUI SÓ TEM NÓS, FICAMOS EM FAMÍLIA. NÃO TEM QUE SE PREOCUPAR DE TER CONTATO COM OS OUTROS, NESSA ÉPOCA EM QUE A GENTE VIVE — REFORÇA A AGRICULTORA MARIA GENECI ROHR, 52 ANOS.

A Lagoa Itapeva percorre quatro municípios pela BR-101: Terra de Areia, Três Forquilhas, Três Cachoeiras e Torres. Próximo ao oceano, permeia Arroio do Sal. E é entre a Estrada do Mar e a BR-101 que se chega a esse local.

Simpático e receptivo – a ponto de insistir, com sucesso, que a reportagem provasse o pão cacetinho com salsichão e salada –, Enir Rohr, 64 anos, vai na mesma linha da esposa.

— Lá em Arroio do Sal está assim de gente — e faz o sinal de aglomeração com a mão.

O espaço reserva tranquilidade em meio à vegetação, com o lago à disposição do visitante. O agricultor define a descoberta em uma sentença:

— Tem a paz de Deus.

As netas do casal tomavam banho na lagoa enquanto o genro pescava com uma varinha de bambu, à procura de traíras. Não havia planos de irem embora, em um dia de sol a pino e céu sem nuvens. A limpeza do automóvel, afirmam os familiares, pode esperar.

Localização: a Estrada dos Cunhas pode ser acessada na rótula do balneário de Itapeva, em Torres, para quem circula pela Estrada do Mar. Já pela BR-101, o acesso a São Brás é sinalizado, também no município de Torres, a poucos quilômetros de Dom Pedro de Alcântara.

Comodidades: há opções de pousadas e sítios com espaço em meio à natureza no caminho.

CACHOEIRA QUE CARREGA O NOME DO MUNICÍPIO

Natural de Bento Gonçalves, o historiador Gervásio Toffoli, 58 anos, trocou a serra onde nasceu pela serra do Litoral Norte. Leciona em duas escolas de Três Cachoeiras e se diz extremamente feliz pela possibilidade de colocar em prática o mestrado realizado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS): antropologia social. Com foco na origem cultural dos povos, leva os alunos a conhecerem a área em que, segundo relatos repassados entre gerações, estão as cachoeiras que dão nome à cidade.


A propriedade é do agricultor Juarez Lumertz Schutts, 54 anos. Fica no distrito de Chapada do Alegrete, região montanhosa com vista privilegiada. No pátio da casa de madeira da família, o barulho da cascata pode ser ouvido da porta dos fundos.

— Os antigos contam a história, que passaram marcando as árvores, há uns 200 anos. E vem muito professor aqui, com os alunos — afirma.

Para chegar à casa, é necessário subir cerca de 2 mil metros desde a BR-101. O caminho é de terra e não apresenta grandes dificuldades em dias de pouco acúmulo de chuvas. Assim como na Prainha, com a intempérie se corre o risco de atolar veículos de passeio. A vista oferece a enseada da Lagoa Itapeva, e compensa algum transtorno nas curvas fechadas ao lado da colina.

O professor Gervásio reitera que a região teve mais de uma casta de colonizadores, entre os séculos 17 e 18: bandeirantes portugueses em busca de ouro e com objetivo de escravizar os indígenas guaranis das tribos carijós, açorianos e jesuítas – os religiosos pretendiam defender os índios da conquista à força dos europeus.


As outras duas cachoeiras – somadas à primeira podem apontar o motivo do nome do município – são de difícil acesso, em mata fechada, mas ficam próximo à da residência de Schutts.

A água que desce do topo das pedras forma uma bacia de pequeno diâmetro. Límpida, é captada por tubulações adaptadas pelo morador, para abastecer as torneiras de uso da esposa e da filha.

No local, o falecido pai criou seus irmãos. Ele demonstra não pensar em se desfazer do patrimônio. Chega a largar um longo “não”, com reforço no "til”, quando questionado sobre alguma proposta pelo terreno, silencioso e cercado por árvores nativas.

A área da Prainha e as demais propriedades privadas que oferecem vistas exuberantes encontram na história, segundo o professor, sua origem. Na época colonial, sesmarias foram distribuídas aos posseiros, e grandes lotes repassados às novas gerações. Até hoje, uma localidade conhecida por Rio do Terra mantém rios, cachoeiras e mata preservada. O nome, também é referência do período de chegada dos desbravadores, que presentearam um dos pioneiros, Manoel Francisco da Terra.

— Essas famílias eram pessoas importantes, e eles não fizeram muitos investimentos de povoamento, por isso as grandes áreas foram sendo repassadas e conservadas — reforça o docente.

Também muito conhecidos por turistas, os poços dos Morcegos e das Andorinhas são comumente confundidos como de origem do nome de Três Cachoeiras. O grupo Trilhas do Sul oferece descidas de rapel e trilhas guiadas na região.


Comodidade: a pousada das Andorinhas oferece hospedagem pelo caminho.

MORRO DA ANTENA E PROJETOS DE FOMENTO AO TURISMO

Em homenagem ao Vale, caracterizado por arroios de água cristalina cercados por cânions praticamente inabitados, foi criado o projeto “O Paraíso é Aqui”. Além de fomentar cafés coloniais e pousadas já existentes, a iniciativa quer gerar renda a quem sobrevive exclusivamente do cultivo de banana.

— Muitas das áreas de visitação são locais privados. Queremos mostrar a eles que podem também ter as belezas naturais como fonte de renda. Tirar o medo de que perderão a propriedade com esse tipo de turismo, ou que a terra só serve para o plantio — explica a pedagoga e barista Gleice Santos, 39 anos, proprietária do Santo Café, onde a ideia foi lapidada.

Lançado em janeiro de 2021, "O Paraíso é Aqui” reúne guias turísticos e moradores que sonham em ver o turismo desenvolvido na região. A principal ideia é reter quem cruza o município pela rodovia federal, a partir de outdoors que deverão ser instalados na entrada e saída da cidade. Uma linha de suvenir está sendo desenhada, com os traços das belezas naturais da região.

O prefeito de Três Cachoeiras, Flávio Raupp Lippert, afirma que irá buscar investimentos.

— Nossa ideia é buscar em Brasília os recursos para toda a sinalização e melhoria das estradas — garante o prefeito.

Uma praça está, atualmente, em processo de restauro no Morro Azul, povoado que, no pórtico de entrada, estampa a frase “bem-vindos ao Vale do Paraíso”. Pousadas com comidas típicas e fartos cafés da manhã foram erguidas em casas históricas, como no Sítio Dona Cenira.


Na Estrada Oliveirinha, se chega ao Morro da Antena – também chamado de Morro dos Oliveirinha. A visão panorâmica alcança a área das dunas. Toda a área urbana de Três Cachoeiras também é avistada do local.

Para aproveitar o potencial das vistas aéreas do interior do município, o chefe do Executivo afirma estudar parcerias com agricultores para instalação de mirantes. Ele não descarta adquirir alguma área para construir uma plataforma, que pode também ser utilizada para voos de paraglaider. O prefeito cita a concessão dos cânions de Cambará do Sul ao defender o investimento de empresários, e compara os montes de sua cidade com o Morro da Borússia, em Osório.


Localização: Sítio Dona Cenira, Estrada Geral do Morro Azul, acesso conhecido como Canto dos Boff. A via pode ser localizada pela RS-494, transversal à BR-101, no lado da serra. A subida para o Morro da Antena ocorre a partir da Estrada dos Oliveirinha, distante 200 metros da RS-494 e a 500 metros da BR-101, no centro de Três Cachoeiras.

Comodidades: em Três Cachoeiras há hotéis e pousadas. Próximo ao Morro da Antena, uma estalagem está sendo construída em meio à vegetação.

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