Na CPI da Covid, gaúcha fala sobre morte do marido: “Costumo dizer que ele foi assassinado”

Na CPI da Covid, gaúcha fala sobre morte do marido: “Costumo dizer que ele foi assassinado”

Natural de Pelotas, no sul do Estado, a servidora pública Rosane Brandão, 58 anos, foi uma das convidadas pela CPI da Covid para participar de audiência pública que ouviu familiares de vítimas da pandemia. A doença quebrou um laço de mais de 20 anos entre ela e seu marido, João Alberto dos Santos Pedroso, que morreu neste ano após contrair o vírus, aos 62 anos.


- Costumo dizer que ele foi assassinado – disse Rosane na sessão da CPI desta segunda-feira (18).

João Alberto apresentou os primeiros sintomas da doença em 11 de abril. A última vez que Rosane viu o companheiro foi no dia 16 do mesmo mês, quando foi hospitalizado — João morreu 10 dias depois. Ele era servidor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) desde 1992.


— O Bola (como João Alberto era conhecido) teve sua a sua vida abreviada por uma política genocida. Nós esperamos uma vacina que chegou tardiamente e a conta-gotas para toda a população. A vacina não chegou para o Bola e não chegou para milhares de vítimas. Saúde pública depende de decisões políticas e ações políticas — contou ainda durante o depoimento.

Bola era o apelido de João Alberto desde criança, quando morava em Santiago, na Região Central do Estado. Ele se mudou para Pelotas ainda jovem, na década de 1980, para estudar Engenharia Civil na Universidade Católica de Pelotas (UCPel). Lá, conheceu Rosane, que cursava História na mesma instituição. A história dos dois, porém, só foi se cruzar de fato anos mais tarde.

— Nós já estávamos casados com pessoas diferentes e nos encontramos. Ou melhor, nos reencontramos. E separamos para ficarmos juntos. Assim permanecemos por 21 anos, até que veio a covid-19 — relatou Rosane a GZH nos corredores do Senado, após a sessão.

Ela ressaltou a importância de ouvir as vítimas que, direta ou indiretamente, foram afetadas pelo coronavírus. Também cobrou a responsabilização de gestores públicos na condução da pandemia no ´país.

— O presidente da República, de fato, é o responsável pelas 490 mil mortes evitáveis. Nós dependemos de políticas públicas para isso e ele era o responsável por essas políticas públicas — afirmou.

A servidora pública pediu para que os senadores tenham “coragem” e que honrem a memória das vítimas da doença no relatório final da CPI, que será apresentado nesta quarta-feira (20).

— Honrem os nossos mortos, diferentemente do que fez o presidente da República. Garantam a memória, a verdade e a reparação. Entreguem o relatório final fiel às barbaridades e às atrocidades que vocês viram aqui. O desprezo pela ciência, a negligência e o descaso — desabafou.

O relatório final da CPI da Covid poderá pedir o indiciamento de mais de 60 nomes, entre eles o do presidente Jair Bolsonaro. Após a votação, o documento será levado aos órgãos que poderão dar seguimento aos apontamentos dos senadores, como a Procuradoria-Geral da República (PGR) e os Ministérios Públicos dos Estados.


Fonte: https://gauchazh.clicrbs.com.br/politica/noticia/2021/10/na-cpi-da-covid-gaucha-fala-sobre-morte-do-marido-costumo-dizer-que-ele-foi-assassinado-ckux4na8v005x017f78mm5zrv.html