Minha avó e a democracia

Cristiano Fretta


(crédito: Gomez)

O que há entre a civilização e a barbárie? Que caminhos separam o Estado de bem-estar social de uma sociedade pautada pela transgressão e assentada na brutalidade como mecanismo de (não) negociação política?

Mudanças drásticas nos mais diversos parâmetros de uma sociedade costumam não ser marcadas por um único evento de transição: mais do que uma espetacularização fundadora, o caminho percorrido entre a organização social e a barbárie cotidiana – como a inflação corroendo a renda, a normalização de discursos discriminatórios, a aceitação pacífica de ameaças à democracia em prol de pragmatismos políticos – é lento e, consequentemente, nos impede de visualizarmos com clareza todos os passos que damos em direção ao caos.

Lembro-me aqui da minha avó Luiza e dos chesters que ela preparava para o Natal: eram necessárias intermináveis três horas de forno para que o bicho ficasse pronto para a ceia. Enquanto isso, eu corria, brincava, enfim, distraía-me com os meus primos e me esquecia que o prato principal da janta estava sendo preparado a 220º C. Não havia um momento específico para que o chester ficasse pronto. Quando me dava conta, a mesa estava posta e o animal estava pronto para ser devorado. Aberto o forno, não havia mais volta.

Em outubro deste ano, teremos a eleição mais nevrálgica da nossa República. Não se deve pensar que uma suposta disrupção democrática seja ponto de partida, mas sim, se deve compreender as ameaças de golpe como um lento processo que há anos se anuncia. As evidências de nossas rupturas estão sendo paulatinamente explicitadas nos últimos anos.

Para além da incapacidade das forças democráticas em impedir a sedimentação das bases de nossa República, há também um certo relativismo intelectual que coloca a gravidade das pautas reacionárias em segundo plano: a tal “cortina de fumaça” acaba por dar um valor de farsa às mais graves agendas retrógradas e, assim, não as compreende como mecanismo de erosão democrática.

Minha avó, se estivesse viva, certamente sustentaria a tese de que “não adianta votar, pois político é tudo igual”. Em sua cozinha, cuidando dos afazeres domésticos que durante décadas caíram sobre si, prepararia as refeições sem se dar conta de que ir às compras e cozinhar também é um ato político. Certamente, no entanto, minha querida avó Luiza não teria dinheiro hoje para comprar um chester.

Professor e escritor

No JC, artigos: 23.05.22

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