Investimentos em infraestrutura indicam superação de velhos gargalos de logística e distribuição

Por terra, água e ar, limitações reduzem a competitividade e fazem a economia gaúcha deixar de incorporar o equivalente a R$ 96 bilhões anualmente

Imagine uma economia que movimenta cerca de R$ 450 bilhões, mas deixa de incorporar outros R$ 96 bilhões, diluídos em custos adicionais, prejuízos e falta de competitividade. Essa é a radiografia do Rio Grande do Sul quando o assunto é distribuição e logística.

Todos os anos, de acordo com dados da Câmara Brasileira de Logística e Infraestrutura (Camaralog), o Estado joga fora o equivalente a 21,5% do Produto Interno Bruto (PIB) por conta da alta concentração do transporte em rodovias e da falta de diversificação de modais. Esse é o tamanho do custo logístico gaúcho e a raiz de um problema nacional, que, por aqui, revela características ainda mais peculiares.

Diante do cenário, Paulo Menzel, presidente da entidade, explica que a economia, seja qual for, é movida "em cima de infraestrutura". E complementa: é o sistema logístico que faz os bens e serviços caminharem melhor ou pior:

— Quando está ruim, ou há décadas atrasado, paga-se o preço por nada fazer. Produzir altos custos logísticos parece ser a nossa especialidade.

Parte desses gargalos ficam evidentes com uma rápida análise da atual matriz logística. No Brasil, as rodovias respondem por 65% do volume de cargas. No Rio Grande do Sul, onde apenas 7,4% dos 156,8 mil quilômetros é pavimentado, a dependência de estradas chega a 88%.

As discrepâncias não param aí. Com uma das maiores áreas alagadas do país, o Estado usa somente 766 quilômetros aquaviários, que representam 3% dos transportes anuais. Sobre trilhos, a história se repete. De 3,1 mil quilômetros disponíveis, só 2,1 mil estão ativos e movimentam 6% das cargas.

A composição afeta em cheio a eficiência e a competitividade. No RS, com 12% das rodovias duplicadas, são raros os trechos que comportam rodotrens, com capacidade para 74 toneladas — um terço superior aos bitrens. Para se ter uma ideia, conforme simulação do Observatório Nacional de Transporte e Logística (ONTL), para levar uma tonelada em contêiner, por mil quilômetros, o transporte rodoviário custa seis vezes mais que o ferroviário.

Outro dado que surpreende e escancara os equívocos da matriz logística é a comparação de capacidades. Uma barcaça de 1,5 mil toneladas, por exemplo, corresponde a 56 carretas e a 15 vagões de trem.

Por isso, o coordenador do Conselho de Infraestrutura (Coinfra) da Federação das Indústrias do Estado (Fiergs), Ricardo Portella Nunes, confirma que as rodovias são adequadas às distâncias menores, mas a falta de alternativas diminui a competitividade frente aos concorrentes nacionais e importados.

O impacto, aponta, também gera reflexos nas commodities agrícolas, que percorrem médias e longas distâncias, com 30% do custo do combustível embutido no valor total do produto. Para Nunes, a boa notícia é que, seja por água, terra ou ar, soluções para velhos gargalos logísticos começam a emergir no horizonte do Rio Grande do Sul.


O que está por vir

Rodovias


  • Concessão de 1.131 quilômetros de rodovias

  • Investimento de R$ 10,6 bilhões em 30 anos

  • Duplicação de 73% da malha viária com pista dupla ou tripla


Ferrovias


  • Licitação da Malha Sul em análise

  • Investimento de R$ 10 bilhões previsto

  • Modernização de 7,2 mil quilômetros entre RS, SC, PR, e SP


Porto de Rio Grande e hidrovias


  • Mudança de gestão de autarquia para empresa pública

  • Investimentos de R$ 9,4 bilhões no distrito industrial

  • Gestão autônoma de receitas para gerar novos investimentos


Aeroporto


  • Ampliação da pista em 920 metros e novo terminal de cargas