Com impulso das cotas, a diversidade racial está mudando a cara das universidades federais gaúchas

Nova realidade do Ensino Superior começa a se refletir no currículo, nas pautas debatidas nos campi e na própria feição das instituições


A última década foi de mudanças drásticas na cara das universidades federais. Demanda histórica dos movimentos negros, a criação, em 2012, da Lei de Cotas, que destina 50% das vagas em instituições federais de Ensino Superior (Ifes) a egressos de escolas públicas e, destas, no mínimo o proporcional ao número de pessoas pretas, pardas e indígenas registrado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em cada unidade da federação, fez com que começasse a circular pelos campi uma diversidade de estudantes que reflete mais o perfil populacional brasileiro. Se a cara mudou, contudo, mudanças curriculares que envolvam questões étnico-raciais seguem sendo um desafio que inclui outras variáveis, como a presença de mais de docentes negros nas cátedras.

Em 2010, 53,9% dos alunos das Ifes do país eram brancos e 40,8%, negros (pretos ou pardos). Esse índice quase se inverteu em 2018: passou para 43,3% e 51,2%, respectivamente, segundo a V Pesquisa Nacional de Perfil Socioeconômico e Cultural dos Graduandos das Ifes. O percentual se aproxima da realidade brasileira, de 42,7% de brancos e 56,2% de pretos ou pardos, conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua de 2019.

No Rio Grande do Sul, três em cada quatro alunos das instituições federais eram brancos em 2018. Porém, o Índice de Inclusão Racial (IIR), que corresponde à razão entre a proporção de pretos, pardos e indígenas (PPIs) na universidade e a proporção na população, era o melhor do Brasil, ao lado de Rondônia, com 1,11. Ou seja: a proporção de PPIs em universidades e institutos federais gaúchos é maior do que a proporção dessa

população no Estado.


Quando Carlos Daniel Vieira, 21 anos, ingressou no curso de Medicina da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), em 2018, não se sentia pertencente àquele espaço. Diz que, nos corredores, via poucas pessoas parecidas com ele e se sentia isolado. Aos poucos, porém, foi tendo mais colegas negros e, juntos, pautaram questões étnico-raciais. Aos poucos, a universidade se tornava mais a sua cara.

– Muita coisa mudou. Em 2018, foi a primeira vez que teve a verificação das autodeclarações étnico-raciais, que evita fraudes, e, desde então, a cada ano a cara da universidade está mudando, e isso em uma instituição com cursos da área da saúde, em que estatisticamente pessoas brancas dominam – ressalta Carlos.

Primeira pró-reitora negra da UFCSPA, Mônica Celestina de Oliveira, que comanda a área de Extensão, Cultura e Assuntos Estudantis, acompanhou, nos seus 10 anos de instituição, mudanças como a inclusão da disciplina de Relações Étnico-Raciais como obrigatória no curso de Gestão em Saúde e optativa em Enfermagem. Outras graduações também oferecem disciplinas eletivas com temáticas étnico-raciais.

Em 2020, outro passo foi dado: foi lançado o Grupo de Estudos Afrobrasileiros (Geab), com professores, alunos, técnicos e bolsistas. Eles promovem debates e levam questões para o conselho universitário. O Coletivo Negro Raça criou o podcast semanal PretoPod. A disciplina eletiva Saúde da População Negra e Questões Afrobrasileiras foi oferecida em 2020 e teve grande adesão: inicialmente prevista para ter 40 vagas, acabou sendo ministrada para 80 alunos, brancos e negros.

– Estamos discutindo que essas disciplinas hoje eletivas sejam obrigatórias, porque é um tema importante na formação. Isso ainda não se consolidou, porque a revisão da matriz curricular envolve vários aspectos, mas acredito que já exista uma mudança no ambiente da universidade, a partir dessa pluralidade inerente aos ambientes acadêmicos – pontua a pró-


Estudante de Psicologia na UFCSPA, Marina Helena Dias da Costa, 22 anos, cursou toda a Educação Básica em escolas particulares e nunca teve mais do que um colega negro. Na universidade, a presença de mais negros lhe motivou a se engajar em pautas étnico-raciais.

– Na Psicologia, estudamos o impacto de os negros não terem representantes nos espaços. Homens negros são remetidos a criminosos e mulheres negras, a objetos sexuais. Se a pessoa não vê outros negros na universidade, sendo professores, no mestrado e no doutorado, ela pode nem deixar esse sonho nascer – ressalta Marina.

Na área da saúde, a estudante entende que é importante analisar como o social pode adoecer. Aluno de Medicina, Carlos lembra que mais da metade da população que usa o Sistema Único de Saúde (SUS) é negra, mas ainda não há espaços consolidados para tratar da saúde de pretos e pardos. A presença de mais profissionais negros traz, em seu entendimento, um olhar mais apurado para essas questões.

– Se tu vais a um postinho, muitos dos pacientes são negros, mas o atendimento é feito por pessoas brancas. Um médico ou enfermeiro negro vai entender mais a vivência daquele paciente, toda a questão psicossocial por trás, e, muitas vezes, a pessoa vai se sentir mais à vontade– acrescenta Carlos.

Pensada para reduzir as desigualdades de acesso, a Lei de Cotas tem em seu centro a reserva de 50% das vagas em cada graduação para quem cursou todo o Ensino Médio em escola pública. Dentro dessas vagas, há modalidades voltadas para pessoas de baixa renda, para pretos, pardos, indígenas e pessoas com deficiência.

A demanda por políticas públicas específicas para a população negra se iniciou em 1995, 17 anos antes da Lei de Cotas, quando a Marcha Zumbi dos Palmares levou um documento ao então presidente Fernando Henrique Cardoso, como relata o professor e pesquisador da História da Cultura Negra no Brasil José Antônio dos Santos, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Os principais avanços, contudo, ocorreram nos anos 2000.


Na UFRGS, o debate ganhou força em 2006, fruto da pressão dos ainda poucos negros na universidade. A criação de cotas foi aprovada em 2007 e posta em prática no vestibular de 2008, com reserva de 15% das vagas para negros e 15% para egressos de escolas públicas. No processo seletivo anterior, 3,17% dos ingressantes eram negros. Houve protestos contra a reserva de vagas, sob o argumento de que a qualidade da instituição cairia – o que não ocorreu. Em 2007, pichações racistas foram flagradas no campus central. Com o tempo, porém, a discussão arrefeceu. Os percentuais de vagas aumentaram com a Lei de Cotas, em 2012.

– Foi um raro momento de discussão da relação racial no Brasil, o que só havia ocorrido antes da abolição da escravatura. Parte dos argumentos contrários eram semelhantes nas duas ocasiões. Esse debate foi fundamental para o entendimento das desigualdades raciais no país – observa José Antônio dos Santos.