Aventura em família: trilhas no Litoral Norte estimulam a autonomia dos pequenos

Reportagem de GZH mapeia trajetos acessíveis para quem quer apreciar a beleza das matas e cachoeiras gaúchas

BRUNA VIESSERI - GZH RBS


André Ávila / Agencia RBS


Se a beira do mar e os castelinhos na areia caíram na rotina durante a temporada de praia, há outras opções para entreter famílias com crianças e adolescentes no Litoral Norte. Além de proporcionar contato com a natureza, trilhas e cachoeiras no meio da mata estimulam a autonomia dos pequenos e trazem novos aprendizados.

A reportagem de GZH mapeou alguns locais com trilhas mais simples, onde a caminhada não exige muito preparo físico. Dois meninos, Miguel Vogel e Arthur da Motta Guizzardi, embarcaram na aventura e desbravaram matas e cachoeiras na última quarta-feira (26).

Gosto pela aventura

Aos três anos, Miguel já tem no currículo mais trilhas do que toda a equipe de reportagem junto. A família esteve recentemente na Patagônia, na Argentina, onde ele conheceu geleiras e lagos. O gosto pela aventura foi herdado dos pais, Keli Bernardes, 32, que é bióloga, e Evandro Vogel, 31, autônomo. O casal se conheceu enquanto fazia rapel em Caxias do Sul, junto de amigos. O equipamento para a prática foi um dos primeiros presentes dados ao menino, antes mesmo de nascer.

Keli se diverte ao dividir o amor pela aventura com o filho. Acredita que isso aproxima a família e traz novos aprendizados para Miguel, mas alerta sobre os cuidados necessários:


— Sempre fomos de gostar de trilha, natureza. Diziam que quando a gente tivesse filho, iria parar. Mas essa nunca foi uma opção. E sempre acreditei que é importante integrar a criança ao ambiente em que ela vive. A família não precisa mudar tudo, deixar de fazer o que gosta. Claro que tem um planejamento, cuidamos muito da alimentação dele nas atividades, inclusive. O limite do passeio é o da criança, mas pode ser tudo muito divertido — afirma.


A bióloga percebe que cada vez famílias buscam passeios que possam ser feitos com os pequenos. Ela afirma que são visíveis os efeitos das atividades no dia a dia de Miguel:


— Sempre vem gente nos perguntar onde ir, o que levar. Acho muito positivo para as crianças. Elas desenvolvem uma percepção de perigo, de cuidados no meio da natureza. Ele costuma comentar quando vê gente muito perto da borda, por exemplo, ou mais para o fundo da água. Já sabe que algumas coisas não são seguras.


Para começar, trilhas mais simples

A percepção de que a procura por atividades na natureza e para famílias vem aumentando também é mencionada por Vagner Fagundes, um dos fundadores da agência Trilhas do Sul, com sede em Três Cachoeiras e foco em passeios pelo Litoral Norte. A empresa foi criada em 2009 no Vale do Sinos, mas mudou para a praia ao perceber o potencial turístico da região.


— A pandemia foi um grande divisor de águas. Aumentou muito a procura por atividades com crianças e adolescentes. Tanto que nós acabamos incluindo no nosso planejamento deste ano mais opções de passeios em família e projetamos, inclusive, comprar equipamentos infantis, como de rapel.


No caso dos pequenos que estão começando a se aventurar na natureza, no entanto, Fagundes ressalta que é importante respeitar o tempo de cada um.


— Especialmente com as crianças que não estão acostumadas, o passeio tem de ser leve, curto, algo que as mantenha motivada. Esses (passeios) educativos, com informações sobre plantas e animais, são ótimas opções. Se a gente coloca muitos obstáculos, deixa muito cansativo, pode ser que ela passe a associar aquela experiência a algo negativo, e buscamos o contrário — destaca.


Arthur da Motta Guizzardi, quatro anos, acompanhou o passeio e também é adepto de caminhadas por trilhas e matas. A influência vem do pai, Fábio Guizzardi, e do dindo, Fagundes.

Logo no começo do passeio, animado, ele acelera o grupo:


— Vamos? Hoje é dia de aventura! — anuncia.


Trilha das Juçaras e da Cascatinha, em Morrinhos do Sul

O passeio oferece diferentes experiências para crianças e adultos. As trilhas são feitas dentro da propriedade do Sítio Recanto Sobragi, que recebeu o nome de uma árvore que pode ser encontrada no local.

O espaço é uma boa pedida para quem faz o percurso com crianças por conta de sua estrutura: tem banheiros, serve almoço e oferece também passeio de jipe. Há quartos para quem quiser pernoitar. Tanto os passeios quanto as refeições precisam, no entanto, ser agendadas previamente.

Na tarde de quarta-feira (26), quando percorremos o local, o que mais encantou as crianças foi a trilha pedagógica, conhecida como Trilha das Juçaras. O trajeto é acompanhado pela proprietária, Nilvia Pinto Pereira, 55. Professora aposentada, ela percorre a mata explicando sobre os diferentes tipos de plantas e animais que podem ser encontrados ali, e fala também sobre colonização, aliando o conhecimento do magistério com a sabedoria que herdou do avô, antigo morador da propriedade.

No local, há plantação de eucalipto, bambu e pés de café, açaí e palmito.


— Pai, é "coisa" de banana, vem ver! — grita Arthur, ao avistar o cacho da fruta, ainda verde, na bananeira alguns metros acima dele. O pai do menino, parceiro na trilha, foi acionado várias vezes durante o percurso para conferir suas descobertas.


Com algumas folhas maiores, Nilvia faz uma trama, mostrando às crianças como era construído o telhado improvisado das casas antigamente. As folhas, destaca, também eram usadas como formas para irem ao forno, ajudando a assar pães e roscas. As instruções e histórias são acompanhadas de perto pelos meninos, que emendam perguntas sobre o local e o cultivo de alimentos.

Ao fim do passeio na mata, uma nova caminhada, de alguns minutos, leva à Trilha da Cascatinha. O trajeto é feito em um gramado, e não exige muito esforço.

Na cachoeira, os meninos pegam pedrinhas e jogam na água, atentos ao som que elas fazem quando afundam. Redes e cadeiras estão espalhadas perto dali, permitindo uma pausa para descansar, se hidratar e reforçar o protetor solar.

Para adultos que quiserem aumentar o nível de dificuldade, há rapel e trilhas mais complexas pelo sítio. Além do almoço caseiro, os responsáveis pela propriedade também fabricam cachaças artesanais — como de gengibre, funcho, jabuticaba e limão com especiarias — e conservas de frutas e verduras.

O local também oferece passeio em um jipe Willys de 1958, que faz um circuito dentro da propriedade e leva até um mirante.


Poço dos Morcegos e Poço das Andorinhas, em Três Cachoeiras

Um dos passeios nos levou a duas trilhas diferentes, uma ao lado da outra. Assim que se desce do carro, o som da cachoeira invade os ouvidos, deixando toda a atmosfera urbana para trás.

À direita, a caminhada conduz ao Poço dos Morcegos. Para chegar até a queda d'água, é preciso subir uma escadaria e depois percorrer alguns metros na mata nativa. O trajeto leva, no máximo, dez minutos. A pequena cascata, no leito do Rio do Terra, tem águas tranquilas e não muito geladas. As crianças aproveitam para se refrescar depois do percurso.

De volta ao ponto de entrada, à esquerda, uma caminhada mais curta leva ao Poço das Andorinhas. O percurso não chega a dois minutos, mas é preciso atenção porque algumas pedras ficam molhadas em razão da queda d'água. A entrada para a cachoeira é um pouco mais afunilada do que na trilha ao lado, mas os pequenos, acompanhados dos pais, aproveitam para entrar na água mesmo assim.


Parque Natural Municipal Tupancy, em Arroio do Sal

Com 21 hectares, a Unidade de Conservação oferece duas trilhas, contato com animais e recursos naturais característicos da região costeira e da Mata Atlântica do Estado.

No local, há duas trilhas de fácil percurso, de cerca de 30 minutos cada, que podem ser feitas por crianças.

No caminho, é possível ver ecossistemas de dunas, lagoas, banhados, mata de restinga, além de flora e fauna associadas a esses ambientes. Ao final do trajeto, os pequenos podem aproveitar a vista de três lagoas que pertencem ao parque.