Aldeia Guarani de Maquiné tem sessão de cinema com filme dirigido e estrelado pelos indígenas

TIAGO BOFF | GZH (clicrbs.com.br)


Anselmo Cunha / Agência RBS


O cacique André Benites, 40 anos, conduz a reportagem pela aldeia Tekoa Ka’aguy Porã, em Maquiné, no Litoral Norte. Aponta para casas de barro e telhado de taquara em um ponto dos 60 hectares de mata. Repete convicto que a luta pela retomada da terra é árdua e injusta, num território invadido e saqueado pelos europeus cinco séculos atrás. Interrompe a caminhada para explicar por quê o não-indígena têm um termo específico em Guarani: juruá.


— Significa que fala demais. O juruá fala demais, puxam qualquer conversa. Nós aprendemos com os mais velhos a falar só o necessário. E a esperar. O juruá é apressado — conceitua o indígena Mbyá Guarani, de maneira pausada e cordial ao eloquente repórter.


A partir desse momento, essa reportagem foi produzida com interrupções pontuais, maior atenção e respeito às diferenças produzidas em 522 anos de convivência forçada. O cacique pediu para não ter seu nome indígena publicado. O motivo pertence a ele.


Cinema em data especial


A aldeia de 74 pessoas teve, na noite de sábado (29), um jantar de celebração dupla. A data marca cinco anos da retomada da área. Também, por coincidência - ou sorte -, foi o dia escolhido para veiculação de um filme gravado em três terras indígenas: a obra Mby’á Nhendu – O som do espírito Guarani.


— Sorte mesmo. Esse momento é a recompensa. Trazer todos, ver o coletivo, comer junto e conversar. É o mais rico — avalia um dos produtores do curta-metragem, o antropólogo Marcus Wittmann, 32 anos.


Durante duas horas, os guaranis se reuniram para a sessão de cinema, realizada na escola local, um prédio erguido por suas próprias mãos. As paredes foram construídas com o mesmo material das tradicionais residências, com uso criativo de garrafas verdes como se fossem vitrais. Placas solares no teto do colégio abastecem um gerador - a fiação ainda não chega até a Tekoa. O amplo espaço acomodou ainda a equipe envolvida na captação e edição do conteúdo, além do time de GZH.

No chão, o casal Cristiano de Souza, 30 anos, e Erica Aquilis, 20, seguravam o filho. O menino Angel tem três anos, e dividia o tempo em brincar com uma espécie de chocalho e observar as cores na tela.


— Muito bom — resumiu o pai, sobre a exibição.


Com o claro intuito de valorizar sua cultura milenar, os debates posteriores ao filme eram iniciados sempre no idioma indígena. Também evidente a distância do branco para a língua originária: os alfabetizados apenas em português não compreendem qualquer palavra.

A escola é autônoma, tem sua grade curricular definida pelo que é mais importante ao povo que a frequenta. São 35 crianças, educadas por duas professoras guaranis e uma não-indígena.

Alguns poucos guaranis são bilíngues, como o diretor da película, o Guarani Gérson Karaí Gomes, integrante do coletivo Comunicação Kuery. Assim que acabada a exposição do trabalho, ele foi aplaudido pelos demais. Se dirigiu ao seu povo explicando que a produção não visa exclusivamente os juruás, mas sim o culto à espiritualidade.


— Trazer de volta a espiritualidade, a cultura e a vivência das aldeias. Mostrar a fala e a conversa viva. É saúde espiritual — disse, em frente ao projetor, nos dois idiomas.


Entrevistas com indígenas, encontros com instrumentos de corda e outros rituais foram detalhados nos 18 minutos do belo documentário.

Com vestimentas tradicionais, tragando tabaco em um Petyngua, o sagrado cachimbo Guarani, estava a professora Cristine Takua, 41 anos. Ela é indígena da Aldeia Rio Silveira, litoral norte de São Paulo.


— Esse trabalho incentiva os jovens a produzir o cinema, fortalece e mostra à sociedade brasileira a importância do fortalecimento dessa cultura — complementa a professora Cristine Takua, 41 anos, da Aldeia Rio Silveira, litoral norte de São Paulo.


Retomada é liberdade


Expressão salientada incontáveis vezes, “retomada” é outra vez explicada por quem acredita não ser compreendido - não sem razão, como comprova a História. O cacique compara à liberdade:


— Felicidade e liberdade. Com isso temos tudo. Sempre precisamos nos adaptar ao branco. Mas não há esforço do outro lado. É uma luta muito difícil.


De plantio próprio, a liderança estima colher na reserva 80% do necessário para a subsistência de todos. Guabiroba, araçá, coco e goiaba são algumas das frutas cultivadas. Há ainda criação de animais, como o frango servido antes da sessão de cinema. Um prato com polenta, arroz, feijão, galinha e salada foi oferecido, e degustado com prazer pelos visitantes - a reportagem não ficou de fora. Banana e melancia sem agrotóxicos fecharam a ceia, em um galpão iluminado apenas por uma fogueira de troncos.


Exibição on-line


Também estrelas no curta, participaram do evento moradores das outras duas aldeias: Tekoa Yvyty, no mesmo município de Maquiné, e Tekoa Yvy’ã Poty, Camaquã, sul do RS.